Terra da Filosofia

 

          

                       
 

 

 

PENSAMENTO E PRODUÇÃO

 

Comecemos com um texto de Macherey sobre Deleuze: "pensar em Espinoza", um texto sobre o modo de Deleuze pensar a filosofia e de abordar outros pensadores, como Espinoza. Deleuze não se pretende historiador da filosofia, não quer repetir as palavras e suas articulações tal como aparecem num filósofo do passado. Ele quer entrar na espessura de um pensamento, no meio criador que produz os elementos pensados por Espinoza. Não há uma verdade congelada ou estabelecida em Deleuze. Só há processos, o fluir de um ato criativo que pressupõe seu plano, seu solo, como um ser vivente pressupõe o meio ambiente em que vive. No ato de pensar não há apenas o seu produto, o pensamento, há também o impensável como força inconsciente e não-atualizada que força a faculdade do pensamento a pensar. Como se em todo pensamento houvesse um elemento oculto que não fosse possível decifrar, pois este elemento não pertenceria ao decifrável: ele jamais poderia ser um objeto de nossa razão. É uma questão transcendental: há algo no pensamento que o força a pensar, o ato de pensar já é um produto comprometido genealogicamente com esta força que o produz e que é o meio onde as problematizações de um pensador aparecem. Nada é fruto do puro acaso, mas tudo só aparece em parceria com o acaso. Isso quer dizer que essa noção de meio repudia a idéia de uma verdade transcendente, eterna e imutável. Pois o meio traz consigo uma multiplicidade de elementos que entram em composição dentro de uma multiplicidade muito maior que contém outros

elementos e outros meios. Esta noção de meio traz consigo a variabilidade. Uma fluidez que é o exercício primordial do pensamento: escapar do domínio da questão orgânica - social, temporal e verídica - e fundar um novo meio. Novo pois escapa a toda condição invisível, impensável e inconsciente que produz o meio orgânico. Novo pois implica a produção de um meio, um novo modo de problematizar. Novo pois não é uma reprodução, não se trata mais de um pensamento reflexivo, aquilo que se produz é, antes de tudo, um mundo próprio. A única alternativa ao mundo orgânico exauridor.

E esse meio se expressa, faz dos elementos que o percorrem a linha abstrata que o expressa. A forma se torna secundária, uma vez que deve a sua atualização ao fundo do qual se destaca. Fundo ou meio. Há que se pensar e o pensamento é o momento em que encontramos uma espessura, que nos sustenta e nos cria. Tudo o que aparece encontra o seu sentido no fundo obscuro que irrompe em suas formas. Monstruosidade que deforma, que não deixa a forma se bastar a si mesma, que não se satisfaz com o significado. Monstruosidade para o mundo orgânico, pois ele anseia pelo imutável, anseia pela fixidez e pela ausência de tempo. Que é a pura fluidez de um mundo que não cessa de mudar. E da vida que não cessa de criar meios para atravessar essa mutabilidade que nos cerca.